21.03.2018

10 passos para empreender em Ciências da Vida

Empreender em ciências da vida exige muita dedicação e esforço, ainda mais se você faz parte da Academia, pois são inúmeras as barreiras que precisam ser ultrapassadas para se ter sucesso e conseguir o produto, processo ou serviço planejado. O Brasil tem uma característica de mercado de mais importar tecnologias do que desenvolvê-las e o desafio, em momento de crises, é justamente mudar esse panorama.

A seguir, o que considero os 10 passos mais importantes para se estruturar um modelo de negócio a partir de inventos oriundos da Academia:

Autoconhecimento e Equipe:

É necessário identificar, através de autoconhecimento, quais as suas principais características e qualidades para se tornar um empreendedor. Existem várias plataformas que podem ser usadas para você se conhecer e saber quais são as suas forças e as suas fraquezas. Após isso, estudar para desenvolver as habilidades que precisam ser melhoradas. A equipe é um dos pontos fundamentais para empreender em ciências da vida. Procure pessoas que se complementam a você e não que sejam iguais a você. A diversidade de competências é fundamental para o sucesso do negócio.

Descoberta:

Nessa etapa inicial, bastante energia deve ser empreendida para se descobrir qual o problema e solução que irão ser escolhidos para empreender em ciências da vida. Utilizando a ferramenta de pesquisa google e artigos científicos com o termo trends será possível identificar as tendências de mercado e escolher a área que você tenha muita paixão em trabalhar. Mas, o importante é que esse problema deva ser realmente uma necessidade ou uma lacuna dos clientes. Será necessário utilizar técnicas de “mapa mental” para tirar as ideias da cabeça e passar para o papel e depois “filtrar” a ideia que realmente irá ser escolhida para trabalhar. Por isso tenha foco, não se perca no meio de tantas ideias.

Lean Canvas:

A ferramenta Lean Canvas é a mais utilizada para começar desenhar o modelo de negócio. Através de uma visão ampla da empresa, em 9 campos do negócio em uma única página, você terá mais facilidade para tomar decisões relacionadas a criação de hipóteses sobre a sua solução, seus clientes, o mercado e consequentemente poder validá-las, através de muita pesquisa de campo. Nesse momento é necessário arregaçar as mangas e trabalhar duro para entender o melhor possível de todos os aspectos relacionados ao negócio.

Entrevistas:

Para conseguir validar se a sua solução é realmente uma necessidade ou lacuna a ida a campo é essencial. Portanto, entrevistar empresários, diretores e colaboradores de empresas que de forma direta ou indireta lidam com a sua solução será fundamental para conhecer o setor escolhido para trabalhar. Também validar com potenciais clientes para entender as dores que necessitam ser atendidas ou que são lacunas ainda não atendidas, para depois então focar na solução desses problemas.

Busca de anterioridade/patentes:

Em ciências da vida é imprescindível que a sua solução esteja protegida com patentes ou que haja um segredo industrial. Portanto, será fundamental fazer uma ótima busca de patentes no IPO, google patentes e INPI para verificar o que se tem de solução protegida na área escolhida para empreender e, o mais importante, também verificar se a sua ideia já não está protegida por outro inventor.

Legislação:

Um dos pontos mais críticos está relacionado com os marcos regulatórios em ciências da vida, que envolvem o conhecimento das barreiras para entrada no mercado e que são determinados por órgão do governo como por exemplo ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). É necessário muito conhecimento nessa área, pois dependendo do produto/processo você pode levar mais de 2 anos para fazer o registro. Se a sua pesquisa envolve uso de animais e pesquisa com seres humanos ficar atento com os comitês de ética específicos. Se envolve patrimônio genético, estar registrado no CGEN. Caso tenha acesso a área de proteção ambiental ou envolve pesquisa com indígenas, há registros específicos para serem realizados.

Núcleo de Inovação Tecnológica e contratos:

Será necessário o conhecimento do decreto que regulamenta a Lei de Inovação recentemente publicado (Decreto 9283/2018) e outros marcos regulatórios (Lei de patentes etc) e, uma aproximação com o NIT de sua instituição é um passo importante. Saber sobre os trâmites internos necessários para a transferência de tecnologia pode ajudar em decisões se você realmente fará esforços para abrir uma indústria ou fará a transferência de sua tecnologia para terceiros. Esteja atento para os contratos e termos de confidencialidade necessários para estabelecer as parcerias com o setor produtivo, visando o co-desenvolvimento de produtos ou processos. Consulte advogados para entender cláusulas específicas de contratos com o setor produtivo.

Desenvolvimento da tecnologia e financiamento:

Apesar de todo o conhecimento necessário para empreender, é fundamental que a sua tecnologia também avança e que envolva algum tipo de inovação, seja em produto ou processo. Aproveite a Academia para conseguir recursos provenientes de órgãos de fomento (FAPEMIG, CNPq) que possam custear avanços da tecnologia até as etapas de escalonamento, uma área ainda deficiente de profissionais no Brasil. Com isso, o valuation de sua empresa torna o mais alto possível, sendo uma vantagem para quando for necessário implementar a startup ou fazer a transferência de tecnologia.

Conhecimento do setor e networking:

Será fundamental que o máximo possível de conhecimento seja gerado sobre o setor que se deseja empreender. Para isso participar de feiras, congressos e eventos, que irão estreitar laços com diversos atores envolvidos no setor desejado e fortalecer o networking. Cada vez mais estão surgindo eventos relacionados ao empreendedorismo, como o Biomaker e Hackathons que podem ser utilizados para formação de times e ampliação de networking. A sua rede de contatos bem estabelecida pode, em um dado momento, ser muito útil para alavancar o seu produto ou processo.

Finalmente, o propósito para empreender deve estar claro e ser o seu guia para enfrentar todos os obstáculos que deverão ser vencidos.

As inscrições para o programa de pré-aceleração, BioStrtup Lab | Rodada 02 estão abertas até dia 10 de junho pelo site (www.biostartuplab.org.br/inscricoes).

Por: Paulo Afonso Granjeiro

Professor, pesquisador, inventor e empreendedor da Universidade Federal de São João Del-Rei/Campus Divinópolis. Graduado em Farmácia-Bioquímica pela UNESP-Araraquara, Mestre e Doutor em Bioquímica pela UNICAMP e Pós-doutor pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts/Estados Unidos. Cofundador da Pulsus Sensores e ProbioFull. “Interesse por educação, tecnologia e desafios. Sem propósito o esforço não vale o peso da micropipeta”.