08.02.2018

5 pontos a se evitar ao montar uma startup de Biotecnologia

Uma das características mais importantes da “cultura startup” é a tolerância ao fracasso. Porém, não espere que todos aplaudam ao contar que faliu quatro empresas e que esta é a sua quinta (e claro, a melhor) ideia para se empreender. As palmas aparecem quando você demonstra que seus fracassos geraram experiência e aprendizado. Ou seja, fracassar é importante pelo que estes erros te ensinaram sobre empreender e claro, como não cometê-los novamente. Ainda melhor se você puder então aprender com erros de terceiros.

Em startups de ciências da vida, considerando as peculiaridades do setor, como maior tempo e custo de desenvolvimento de produto, maiores barreiras regulatórias e claro, os sempre grandes graus de incerteza, isso se torna absolutamente crucial. Por isso, confiram alguns pontos aos quais precisamos prestar atenção:

1) Montar a equipe com a “galera do lab”.

Ter uma (excelente) equipe é condição sine qua non para colocar seu projeto de biotec em prática. Startups de biociências são, geralmente, frutos de pesquisas acadêmicas em ambientes de laboratórios universitários. Dessa forma, é comum que as equipes sejam inicialmente formadas com as pessoas que já trabalham proximamente àquela tecnologia: mestrandos, doutorandos, alunos de iniciação científica ou pesquisadores, uma vez que estes estão familiarizados com a ideia e são inicialmente os mais disponíveis para se dedicar ao projeto. Se esta conformação pode ser suficiente para passos iniciais, tenha em mente que não ter pessoas com competências e formações diferentes é receita certa para uma vida curta. Empresas são instituições complexas que requerem atividades como vendas, contabilidade, gestão, marketing e jurídico, em uma lista longe de ser exaustiva. Enquanto pessoas que originalmente são cientistas podem sim ser treinados para desempenhar novas funções, a diversidade de formações é benéfica para a startup, pois aumenta o pool de conhecimento e favorece o ambiente para surgimento de inovações.

2) Confundir justificativa científica com dor de mercado

É comum (e desejável) que projetos de pesquisa, especialmente quando estão se submetendo à editais de financiamento, montem justificativas para o estudo. Estas justificativas normalmente estão embasadas em aspectos técnicos que levarão o estado da ciência à frente. Porém, tal justificativa raramente constitui validação de dor de mercado. Uma dura verdade que a sua startup precisará enfrentar é a de que o avanço científico não se traduz naturalmente em produção de valor. Em miúdos: só por que é novo, melhor, mais rápido ou mesmo mais barato não significa automaticamente que irá vender. O processo de validação do seu projeto de biotec é longo, árduo e contínuo e precisa ser executado de forma livre. Soa familiar? Se parece muito com o método científico de pesquisa. Porém não pense que isso tornará a execução mais fácil. Exatamente pelo passado e relacionamento com a pesquisa científica anterior, vieses de confirmação tendem a acontecer frequentemente no processo, algo que deve ser evitado. Sobre isso, recomendo muito o texto da equipe de design do Nubank, contando como foi o processo de criação de um novo produto, a Nuconta.

3) Má comunicação entre a estratégia e a ciência

Decisões estratégicas da empresa devem sempre ser tomadas em total sintonia com o setor de pesquisa. O estado do produto ou serviço oferecido é diretamente relacionado ao valor que este entrega. Uma comunicação equivocada entre estes setores pode levar a expectativas erradas em parceiros, investidores, órgãos regulatórios, clientes e até mesmo sócios. Diferentemente de startups de tecnologia de informação, barreiras tecnológicas em ciências da vida raramente são transpostas com algumas longas noites de trabalho frenético regadas a café. Um claro exemplo desse descompasso entre estratégia e desenvolvimento é a Theranos. A empresa da ex-bilionária Elizabeth Holmes já foi “a queridinha” do Vale do Silício, porém, fracassou em um caso que parece saído diretamente de uma tragédia grega (ou um filme hollywoodiano de desastre).

4) Confundir a dinâmica de um laboratório de pesquisa com a dinâmica da startup:

Uma startup é muito diferente de um laboratório. Enquanto um pretende gerar valor, o outro gera conhecimento, apenas para ficarmos nos objetivos gerais. Isso altera os rumos de estratégias, desde quem tem poder de decisão até quais insumos a serem adquiridos, passando por horários de funcionamento e tipo de dedicação de cada participante. E ainda mais importante: um não é automaticamente a extensão do outro! Por isso, nada de ocupar tempo do técnico de TI da startup para montar rede de computadores do laboratório ou de usar aquele equipamento que só o laboratório tem. Claro que acordos de cooperação podem ser tecidos (devem ser), mas tenha em mente que os interesses das duas instituições são diferentes e que os termos deste acordo precisam estar claros e previamente acordados entre as partes.

5) Ler textos demais sobre erros comuns:

Uma parte da jornada do empreendedor mais importantes é a do autoconhecimento. Por mais que textos como este que você está lendo ou este (altamente recomendado!) ajudem o direcionamento e preparem o empreendedor para o que vem pela frente, é a sua experiência ao construir a sua startup, tirar do papel seu projeto de biotec, que realmente conta. Tome as suas decisões, se responsabilize por elas, cometa os seus próprios erros, aprenda o máximo que puder com eles, proponha novas hipóteses, valide novamente, ponha em prática. Repita esta fórmula à exaustão. Conheça quantas pessoas interessantes você conseguir, esteja sempre disposto a aprender e a compartilhar suas experiências. A sua bagagem é crucial para inovar e nenhum texto sobre o que outros fizeram vai substituir isso. Por isso, mãos à obra!


Por: Guilherme Marinho | Coordenador de Projeto de Biotecnologia SEDECTES – Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia e Ensino Superior.

Biólogo com MBA em Recursos Humanos e MSc em Biotecnologia. Acredita na inovação como ferramenta crucial para a melhoria sustentável e harmoniosa da qualidade de vida. Faz o possível e o impossível para aumentar o impacto de uma biotecnologia. Longe do escritório ou do laboratório, está sempre na fila da frente de um bom show ou roendo as unhas em jogos do Atlético.

guilherme.silva@tecnologia.mg.gov.br