25.04.2018

Do It Yourself – Bio: uma nova forma de inovar em Biotecnologia

Não há dúvidas de que o movimento Do It Yourself – Bio, ou também conhecido como Biohacking, está mudando a forma e quem pode inovar em Biotecnologia.  Direcionado pelos princípios de inclusividade e open-science, o movimento biohacking encoraja o compartilhamento e transparência de dados, ideias e recursos. Como resultado, a inovação passa a ocorrer fora dos espaços tradicionais, como universidades e departamentos de P&D de empresas privadas, e surgem os biohacker spaces.

O movimento DIY-Bio/Biohacking (Biologia de garagem) nasceu como resposta à necessidade de acesso e democratização da Biotecnologia. E hoje, os biohacker spaces atraem um número crescente de empreendedores, estudantes, cientistas e membros do setor público. Mas e aí, o que isso tem a ver com você? Se você se encaixa em algum dos papéis citados anteriormente, tem TUDO a ver com você! Primeiramente, porque o movimento Do It Yourself – Bio, mais precisamente os biohacker spaces, possuem um grande potencial de promover a inovação. Numerosos projetos inovadores já surgiram desses espaços, por exemplo, os biohackers já desenvolveram medicamentos de baixo custo para doenças como diabetes e, possuem metodologias para o desenvolvimento de ferramentas e equipamentos alternativos, com melhor custo-benefício em relação aos muitos equipamentos laboratoriais onerosos, dentre vários outros projetos impactantes.

No entanto, muito além de gerar projetos radicalmente inovadores, o movimento Biohacking está mudando a forma de funcionamento do ecossistema de inovação e impactando os diferentes atores deste. Por oferecer a oportunidade para que qualquer pessoa, desconsiderando o background acadêmico, “exerça” a biotecnologia, seja por curiosidade ou outro motivo, esse movimento contribui para construir uma sociedade mais inclusiva e engajada com a ciência. Além da esfera social, os biohacker spaces também têm o poder de impactar na economia, setor científico e educacional. Na esfera econômica, esse movimento facilita que bioempreendedores tenham acesso às ferramentas e aos treinamentos para prototipar seus produtos e desenvolver seus negócios em ciências da vida. No que se refere à pesquisa científica, esses espaços promovem novos avanços na ciência, à medida que permitem o desenvolvimento de inovações radicais. No nível educacional, muitos biohackers spaces auxiliam no treinamento de pessoas para que desenvolvam skills em biologia e vivência de laboratório.

Não podemos deixar de comentar as polêmicas e questões éticas envoltas a essa temática. Não há dúvidas de que o biohacking pode apresentar riscos de biossegurança. O movimento pode até mesmo causar medo no público e, por isso, algumas pessoas preferem uma forte abordagem regulatória ao biohacking. No entanto, um sistema regulatório rígido pode ser paradoxalmente mais problemático para a segurança pública. Como se posicionar em relação a isso?

Outro questionamento que surge é relacionado às questões da propriedade intelectual (PI), há um atrito entre o modelo de open science do biohacking e a ideologia “fechada” do sistema formal de PI, o qual tem se mostrado ser crucial para as pesquisas em biotecnologia. Inclusive para grandes empresas privadas, a proteção proporcionada pela PI é imprescindível para garantir o direito de exploração de uma determinada tecnologia, proporcionando-lhe uma vantagem competitiva em relação aos concorrentes. Então, como proceder diante de um grupo de biohackers da Califórnia que está produzindo insulina a baixo custo, sem qualquer proteção patentária? Com certeza, essa inovação pode ser significativamente útil na melhoria do acesso às tecnologias de saúde e, sem dúvidas, pode impactar todos os envolvidos no setor.

Essas e outras questões serão abordadas no evento “Open Science” que ocorrerá junto com o Demoday da 5ªedição do BioStartup Lab, no próximo dia 03/05. Esse evento contará com um painel de discussão da temática Do It Yourself – Bio, no qual importantes atores do ecossistema terão a oportunidade de expor seus posicionamentos, enriquecendo e contribuindo ainda mais para o desenvolvimento desse movimento. Juntos podemos quebrar barreiras e eliminar gargalos a respeito de inovar em Biotecnologia. Não percam!

Por: Sabrina Feliciano | Analista técnica do BioStartup Lab

Bióloga e doutora em Microbiologia, com experiência em pesquisa e ensino superior. Já atuou como Professora e Pesquisadora em Institutos e Universidades, e no desenvolvimento e gestão de startups de base tecnológica.