21.07.2017

Economia Circular e Startups: Um relacionamento promissor

Por Arthur Silva, empreendedor participante da segunda rodada do BioStartup Lab com a startup BioCorte, doutorando em inovação pela UFMG e hoje um dos responsáveis pelo setor de Empreendedorismo e aceleração de tecnologias do INCT Midas.


Esse é um termo que tem ganhado cada vez mais visibilidade no meio acadêmico e fora dele, a economia circular (EC). Estranho ler um termo tão abrangente e intangível como economia seguido pelo nome de uma forma geométrica, não é verdade?

Mais fácil que explicar a economia circular é começar pelo seu oposto e mais comum sistema de produção e consumo usado hoje pela sociedade: a economia linear.

Figura 1. Fluxograma da economia Linear.

A maior parte de nossos bens de consumo são produzidos seguindo um raciocínio simples. Recursos naturais são extraídos, passam por processos de beneficiamento ao adquirirem a composição e forma desejadas, são consumidos na forma de produtos e formam resíduos que devem ser dispostos com altas ou baixas exigências, dependendo de sua composição e origem. Poucos destes resíduos têm algum tipo de separação, terminando tudo bem misturado.

Não é segredo para ninguém que lixo, mesmo que sua disposição seja “ambientalmente correta” como em aterros (que são soluções paliativas), é um problema de toda a população mundial. Só o Brasil produziu em 2012 mais de 62 milhões de toneladas de resíduos sólidos, mesmo após dois anos da implementação da política nacional de resíduos sólidos (PNRS), reciclando cerca de apenas 2% de todo o lixo. O acúmulo de resíduos é conhecidamente um problema ambiental, mas também toma formas econômicas e sociais. Mesmo com a PNRS, hoje quais empresas são capazes de implementar uma logística reversa eficiente? Temos mão-de-obra capacitada para desenvolver sistemas de produção do tipo Cradle-to-cradle (C2C)? Mesmo se houver, há fiscalização? Políticas ambientais por si só são um meio eficiente de frear a busca incessante pela competitividade das multinacionais?

É aí a grande sacada da economia circular e provavelmente a fonte do maior número de confusões com o termo, devido também ao desenvolvimento de escolas de pensamento análogas no campo da economia.

Figura 2. Diagrama sistêmico da economia circular. Fonte: Ellen MacArthur Foundation

Fonte: http://www.greennation.com.br/artigo/vamos-circular/4721

 

A EC tem como uma de suas definições mais sucintas “uma economia regenerativa por design” e foi dada por um dos principais responsáveis por sua difusão em todo o mundo, a instituição Ellen MacArthur Foundation. Fundada pela velejadora britânica Ellen MacArthur desde que se aposentou do esporte em 2009 para se empenhar em suas campanhas ambientais, atua em iniciativas econômica-ambientais em todo o mundo.

Como sugere o nome, negócios que possuem características da EC são definidos pela sua capacidade em controlar a recirculação de toda a sua cadeia de produção, desde insumos, utilização de seus produtos e serviços até o seu descarte. Lendo assim, parece só um novo nome pra reciclagem, eu sei. Mas calma!

O modelo tem grande sinergia com outros velhos conceitos da economia verde, entre eles 3R (Reduzir, reusar e reciclar, com foco igual em cada um dos Rs), ecologia industrial, Design Thinking, entre outras escolas de pensamento.

Na EC, é incentivada a utilização de energias renováveis no lugar de fontes finitas de energia, como toda boa iniciativa ambiental, por razões que todos nós já sabemos, além da otimização da produção e gestão inteligente de resíduos, próxima do 100%. É cientificamente impossível não haver geração de lixo em nenhum momento como manda as leis da entropia em que não existem sistemas completamente reversíveis em lugar nenhum do mundo.

As semelhanças diminuem quando analisamos um fluxograma dos diferentes ciclos.

O comportamento da entrada e saída dos insumos e resíduos depende da origem de seus constituintes. Compostos orgânicos, biodegradáveis e nutrientes tendem a se comportar de acordo com o ciclo biológico e materiais sintéticos, poliméricos e até mesmo serviços tendem a acompanhar o ciclo tecnológico. É possível ver com mais clareza diferenças entre os ciclos neste link.

Insumos biológicos são mais difíceis de serem reutilizados principalmente por causa do seu caráter perecível. Difícil pensar em reutilizar o malte moído da cervejaria para fazer mais cerveja, não é verdade? Facilmente produtos biológicos perdem suas caraterísticas interessante para o mercado. Mas isso não significa que os elementos que constituem aquela biomassa não sejam interessantes!

Essa verdade é ainda maior se falarmos de nutrientes. Um dos três macronutrientes essenciais para a manutenção de quase todo tipo de vida (e importância extrema para a agricultura, logo pra economia brasileira) é o fósforo. O Brasil era até o ano passado o 8º maior produtor de fósforo do mundo e possuía a 5ª maior reserva de fosforados do mundo! Mesmo assim, importa mais de metade do fósforo utilizado apenas na produção de fertilizantes. Isto além da sua utilização na indústria alimentícia como conservante universal, na indústria de produtos de limpeza, entre outros. O problema: sua fonte principal no mundo é finita! Estima-se que fósforo vai se esgotar em cerca de 50 a 100 anos e alguns países já se resguardam em recuperar fósforo de efluentes industriais, como o Japão. Utilizador massivo do insumo devido à sua utilização na indústria tecnológica e automobilística.

 

Figura 3 a). Planta de recuperação de fósforo no Japão.


Figura 3 b). Pellets de fosfato recuperados de efluentes de esgoto sanitário.

 

A empresa, spinoff ou startup que se posicionar na recuperação e reutilização de fósforo de efluentes futuramente terá um lugar garantido no mercado do agronegócio brasileiro e mundial. E foi pesquisando sobre o assunto que hoje faço parte de uma startup de recuperação de fósforo para pronta produção de fertilizante de uma fonte muito inusitada e subestimada: a urina humana! Mais sobre o assunto no próximo capítulo, aguardem.

Biorrefinarias também entram nessa. Compostos intermediários importantes para a indústria química na produção de diversos plásticos e outros polímeros começam a ser separados de biomassas de diversas origens que antes seriam descartadas. Assim, contempla-se um futuro em que o craqueamento do petróleo não será mais necessário (ou pelo menos tão crucial).

 

E o ciclo tecnológico? Bem, esse possui mais possibilidades diferentes de processos e principalmente de modelos de negócio. A EC incentiva antes da reciclagem e desmembramento completo das substâncias que compõem os diferentes materiais:

1º – A reutilização dos produtos através de modelos de negócio baseados em economia criativa e compartilhada. Ex: sistemas de compartilhamento de carros, aluguel de artigos para bebês.

2º – Utilização do mesmo produto para propósitos diferentes, sejam agregando valor, chamado de upcycling ou superciclagem (famosos pallets para decoração, a nova moda da galera) ou desagregando valor, chamado de downcycling ou subciclagem (utilização de rejeitos de todo o tipo de indústria como aditivos na indústria do cimento, mesmo que essa não seja uma solução completamente sustentável devido aos possíveis poluentes adicionados ao processo).

Downcycle e upcycle, respectivamente.

 

3º – Design inteligente que permite a troca de peças e componentes para o aumento de vida útil de produtos. Ex: o caminho CONTRÁRIO do tomado pelas fabricadoras de celular, que tornam consertos mais caros e encorajam a compra de novos aparelhos de celular.

4º – Desmantelamento completo dos compostos do material para reutilização e reinserção no ciclo como nova matéria prima. Ex: pellets de PET, da reciclagem das garrafas, hoje comercializadas para serem reutilizadas na indústria têxtil e de vernizes.

 

Casos muito interessantes são encontrados por todo o mundo que intencionalmente utilizam a filosofia da economia circular na construção de seus modelos de negócio. Um exemplo é a construtora da cidade de Brummen, na Holanda. A mesma foi contratada para construir a prefeitura da cidade e absolutamente toda sua estrutura foi pensada para que a desativação futura do prédio, ele possa ser desmontado em peças que possam ser reutilizadas em outras construções. Não precisamos nos lembrar do quanto o setor da construção civil contribui para o acúmulo de resíduos sólidos em todo o mundo, né?

A característica circular destes modelos vai ainda mais longe. Quanto menor o raio do “Círculo” do processo em questão, se este for o desejo de sua produção, mais próximo do valor agregado inicial está seu insumo. Afinal, máquinas de lavar que são consertadas ou compartilhadas ainda são máquinas de lavar. Ou ainda, antes de pensar em reutilizar as paredes da prefeitura de Brummen para outro fim, por que não reutilizar as mesmas como ainda como paredes, mas de uma forma criativa como a construtora pensou? Percebe o valor de manter o ciclo com raios cada vez menores?

Figura 5. O tamanho dos ciclos e longevidade da vida útil de produtos.

Quanto maior o raio do círculo considerado, mais difícil o resgate de seu valor inicial mas em consideração leva-se a economia de recursos para produção de novos produtos, entre eles o preço gasto no descarte dos resíduos, agora transformado em investimento na obtenção de novos insumos. Porém, o aumento da ciclagem dos produtos aumenta sua reutilização na cadeia e consequentemente diminui a entrada de matérias primas novas.

Interessante também notar que em quase nenhum desses casos o sistema econômico se adequou naturalmente ou por acaso. Todas estas iniciativas têm em comum o Design Thinking. Pensar em grandes produções industrias, em modelos de negócio complexos e até mesmo nas embalagens dos produtos, mas de forma que o descarte (ou melhor, reutilização) sejam facilitados. Pensar na ponta da cadeia com a mesma importância no qual se pensa no seu início. Tão importante a ponto de algumas mineradoras pelo mundo, junto com iniciativas públicas desenvolverem previamente à perfuração de sítios, planos de ressocialização dos locais em que após seu esgotamento de extração de minérios se transformarão em parques e espaços públicos destinados à população.

Como toda nova mentalidade econômica ou de produção, encontra barreiras na sua implementação. Entre os grandes problemas que as empresas enfrentam em se adequar em modelos de negócio circulares, um dos principais é a inconsistência da qualidade dos resíduos. Vamos pensar em um controle de qualidade de insumos de uma empresa farmacêutica. Você confiaria a qualidade da sua produção na utilização de um resíduo? Acho que não. Por isso existem empresas intermediárias entre as cooperativas de catadores de PET e a venda para empresas têxteis: essas garantem a uniformidade do insumo! Este raciocínio vale para processos de upcycling mas se mostram menos importantes em processos de downcycling. É inútil garantir a qualidade de algo que não altera sua forma de utilização.

Outro problema na utilização de resíduos é escalabilidade dos processos que os utilizam. Se a demanda pelo resíduo no qual eu uso aumentar, haverá produção do mesmo o bastante para que sacie minha demanda? Depender da produção de um resíduo para aumentar a sua produção é um risco que poucas empresas hoje estão dispostas a correr.

Há interesse por produtos eletrônicos e utensílios domésticos com reposição de peças facilitada, que poderiam ser consertados mais vezes? Há pessoas que pagariam por um serviço de troca de móveis periódico, em que sua mesa seria sua por um ano, depois seria trocado por uma nova? E se sua mesa antiga seria vendida para alguém que paga o mesmo serviço, porém um valor menor?

 

Enfim, o assunto é vasto. Muitas possibilidades de discussão e aplicação. Encorajo a todos os entusiastas pelo assunto a visitarem o link do diagrama na página da Ellen MacArthur Foundation para clarear algumas noções e no meu próximo post falarei sobre a sinergia entre economia circular e a cultura de startups!

Até!