14.02.2018

GAVETA? Trabalhei e é esse o destino da minha pesquisa de biotec?

Pode ser meio desestimulante para algumas pessoas, mas é fato que grande parte das pesquisas científicas vai acabar em uma gaveta, seja como um trabalho de conclusão, uma dissertação ou ainda a tão sonhada tese de doutorado.

Claro que algumas vezes as pesquisas científicas saem do papel e são aplicadas rapidamente, algumas áreas podem até ter mais esse viés, como em saúde principalmente, mas em termos gerais é: sua pesquisa de biotec para “lá” e o diploma para “cá”. Não se preocupe, você não será nem a primeira, muito menos a última pessoa a passar por isso. Mas se você já tem consciência disso, merece parabéns, porque somos culturalmente educados na academia a produzir, produzir? O que? Um artigo “bien sûr”! É quase um pleonasmo, vida acadêmica = artigo científico.

Às vezes é difícil ver uma aplicação direta do objeto de estudo, isso porque alguns trabalhos são de pesquisa básica, para descrever alguns processos ou eventos. Falo, por vivenciar isso durante toda a minha formação acadêmica. O que você esta fazendo tem aplicação direta? Seja como um produto ou um processo? Sim. Bom, vai ser mais fácil para você! Se não, não se sinta desestimulado(a), pare de ler e reflita.

Muitas instituições têm mudado as suas políticas, ou se atualizando para incentivar o empreendedorismo (o que inclui VERBA), então se sua pesquisa em biotec vai virar um artigo, ótimo! Se não, melhor ainda! Você pode fazer dela algo de valor monetário. Claro que só pelo fato de você ter pesquisado já merece reconhecimento, mas se isso não basta para você, aí meu caro, ou minha cara, bem-vindo ao grupo.

Fato, é viciante fazer com o que você trabalha(ou) seja utilizado/desejado por outras pessoas, o que inclui empresas. Fácil nunca foi e nunca será, mas com certeza a satisfação é a moeda de troca! Mas também não sejamos ingênuos em não pensar no potencial econômico, afinal, artigos não têm bancado muito as contas de ninguém!

Pesquisas de biotecnologia normalmente tem alta aplicabilidade imediata, cabe a você (e o ambiente que você esta influencia muito), fazer com que isso ocorra. Sair da bancada para um pitch é um processo que não ocorre do dia para a noite, mas algumas horas de dedicação podem tornar isso mais fácil!

Primeiro passo para fazer com que a sua pesquisa de biotec possa ser rentável é colocá-la em uma GAVETA! Pause, isso mesmo, achou que era o contrário né, mas não! Deixe-a ali guardada, mas nada de sete chaves, porque conversar com outras pessoas sobre o que você tem pode lhe abrir muitas portas!

Mas agora o FOCO é em fazer com que outras pessoas, principalmente leigas no assunto, fiquem interessadas por ela. “Ah, super legal, eu isolei uma molécula que pode bloquear as bombas de potássio da membrana plasmática de um fungo fitopatógeno”, fala isso para um investidor para ver “o que vai dar”. A explicação técnica é sem dúvida, aquela pontinha do iceberg. Mas falar, que você tem uma molécula que pode acabar com uma doença da soja, aí meu(inha) caro(a), até eu que estou aqui escrevendo esse artigo tenho interesse. Citei esse exemplo, pois grandes culturas agronômicas têm investido muito em novas soluções, porque convenhamos, as técnicas tradicionais já não fornecem mais suporte para a demanda mundial.

O conhecimento técnico você tem (ou deve ter, afinal é a SUA pesquisa), participar de oficinas, dinâmicas, ler livros (prefiro youtube), pode fazer com que o seu caderno de laboratório ganhe um logotipo, um código de barras e uns cifrões na sua conta bancária! Não é assim, tão fluido como aqui vos descrevo, mas com dedicação e no ambiente certo as coisas podem acontecer e você se assustar por ver aonde chegou.

Agora que você já sabe o que fazer para convencer os outros a respeito da sua pesquisa de biotec, recupere-a da gaveta e prepare, para agora, explicar as equipes técnicas de uma empresa incubadora e do tão sonhado investidor. Se você mesmo assim, não tem uma pesquisa que pode virar diretamente um produto, você pode ser ele. Muitos investidores veem na pessoa o espírito inovador, aquele “olho brilhando” por colocar algo em prática e mais ainda o famoso “sangue nos olhos”, para tornar aquele projeto viável.

Se tens o espírito inovador, e ainda não sabe nada de empreendedorismo, está atrasado, mas calma, ainda dá tempo! Se você acha que não tem esse perfil, mas é muito bom com pesquisa, dedicado(a), curioso(a), ponto para você também. Forme uma equipe alinhada e “pé fundo no acelerador”!

Confira aqui algumas dicas para começar a empreender com sua pesquisa.

 

Por: Conrado Vieira

Biólogo (UEMG), mestre e doutorando em microbiologia agrícola (UFV). Marqueteiro, bioinformata e ciclista. Empreendedor serial, CEO das startups Shaw Bioinformatics, myLabo e Chez orchidées.