01.03.2018

Não basta ser médico, é preciso ser médico empreendedor

Num passado distante, existiu a figura do médico profissional liberal abastado e influente. Cheio de si, bastava-lhe o diploma que o futuro já lhe seria certo: a alcunha de doutor e todos os seus louros. É claro que essa figura pode ainda subsistir, com suas pompas, em algum canto mais interiorano, mas para o jovem aspirante à medicina essa idealização parecerá cada vez mais equivocada tão logo se formar. É que os tempos mudaram. E apesar dos lamentos dos médicos mais antigos, isso pode não ser tão ruim, ao menos para os novos médicos que igualmente atualizem sua mentalidade.

Para tanto, é preciso primeiramente reconhecer a falência de alguns dogmas. O primeiro deles, talvez o mais difícil de admitir, é que os pacientes de hoje não são mais receptores passivos de cuidados dos profissionais de saúde. Em vez disso, eles são consumidores exigentes, conectados digitalmente, e são cada vez mais impulsionados pelo desejo de um serviço de alta qualidade. À medida que assumem mais responsabilidade financeira por seus cuidados, os pacientes esperam mais valorização e engajamento de seus médicos, e não terão dúvidas sobre procurar outro profissional quando não são se sentem adequadamente atendidos.

Outro dogma que cai por terra diz respeito à questão do marketing pessoal. Em meio ao grande número de profissionais formados, grande parte deles sem qualquer balizamento técnico, imaginar que o marketing corrompe a prática é de um purismo muito ingênuo, pois é justamente pela autopromoção que o mau profissional pode se beneficiar frente ao bom profissional purista. É por isso que, por mais que se tenha uma excelente prática, é importante saber o que os pacientes pensam sobre você. Nesse sentido, os pacientes que hoje estão imersos nas mídias sociais tendem a gostar de profissionais engajados socialmente e aumentar a presença em redes sociais representa uma grande oportunidade para abrir linhas de comunicação e estabelecer uma identidade na comunidade, que pode ser justamente o diferencial.

E, por fim, o grande calcanhar de Aquiles do exercício da profissão: a gestão. Outrora, ao profissional de saúde bastava adentrar o consultório e seguir atendendo, paciente a paciente. Ora, nada pode ser mais antiquado que isso. Desconhecer conceitos de gestão do tempo e do processo de trabalho da microclínica pode ser fatal.

No entanto, infelizmente todas essas atualizações de mentalidade não são curricularmente repassadas e aprendidas. As faculdades, com raras exceções, teimam em manter seus currículos tão anacrônicos quanto a figura do médico profissional liberal abastado e influente. Com isso, formam, a mais das vezes, profissionais descompassados com o seu tempo. E é por isso que, do ponto de vista do estudante incomodado com sua forma de ensino e do jovem médico apercebido da nova situação, a atitude de tomar a iniciativa de fazer diferente é também um ato de empreendedorismo. Afinal, cada vez mais, será evidente: não basta ser médico, é preciso ser médico empreendedor.

 

Por: Gregório Victor Rodrigues

Residente em Medicina de Família e Comunidade pelo Hospital Odilon Behrens-BH. Professor convidado para a Disciplina de Introdução à Atenção Primária na Faculdade de Medicina da UFMG. CEO e Co-Founder da Startup AEQ Digital Health. Graduado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais. Interessa-se, sobretudo, em Atenção Primária em Saúde, Medicina de Família e Comunidade, Medicina Baseada em Evidências, Educação Médica e Raciocínio Clínico. Pretende seguir carreira docente, com vistas ao ensino de Semiologia e Raciocínio Clínico.