21.06.2016

BioStartup Lab: Como estamos provocando mudanças e a importância da geração de cases locais

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Se tem uma foto que conta muito da história do BioStartup Lab até aqui é esta aí em cima. Nela, estão (da esquerda para a direita), o Fernando, graduando em ciências biológicas, a Ariane, pesquisadora que participou com a startup Leishnano da 1ª Rodada, o Rafa, coordenador do programa e o João, um dos agentes de aceleração. A foto foi tirada dentro do auditório do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no dia em que o Rafa e o João voltaram, pela segunda vez, à UFRJ para falar sobre o BioStartup Lab.

Rafa e o João conheceram o Fernando em Belo Horizonte em agosto de 2015 em um workshop realizado pelo Grupo de Biologia Sintética i-GEM sobre biotecnologia sintética. Na época, o BioStartup Lab era ainda uma ideia em ritmo acelerado de desenvolvimento dentro da Biominas.

Rafa havia sido convidado para dar uma palestra sobre empreendedorismo no campo de ciências da vida e o ponto de conexão surgiu quase no fim, quando mencionou brevemente o BioStartup Lab, o que foi motivo para que, depois da palestra, alguns alunos interessados pelo tema o abordassem. O Fernando foi um deles. Muito eufórico e bastante empolgado, ele falou sobre as iniciativas voluntárias que ele e outros alunos da graduação estavam desenvolvendo para a difusão do empreendedorismo e do movimento biohacking na UFRJ. A conversa foi muito rápida, mas suficiente para a troca de contatos e para que os três perdessem todo o coffee-break.

Os contatos evoluíram, o BioStartup Lab foi lançado em Belo Horizonte e, depois de um mês e meio, já em outubro, a equipe da Biominas estava no Rio e a realização de um encontro para a divulgação do programa na UFRJ foi possível graças a mobilização do Fernando e de seus companheiros que trouxeram alunos e professores de diferentes áreas para ouvir sobre o programa.

Rafa e o João fizeram de tudo para realizar uma apresentação que pudesse demonstrar a oportunidade que o empreendedorismo representa por meio de exemplos que inspirassem o público presente. A forma encontrada para isso foi utilizar conhecidos cases internacionais como o de Elizabeth Holmes da startup Theranos, o do cientista brasileiro Leonardo Maestri da startup GeneWEAVE. No final, todos foram convidados não só para aplicar para o BioStartup Lab, mas também para participar do evento Startup Weekend que seria realizado dali há um mês em Belo Horizonte com foco em criar soluções de biotech e digital health durante um final de semana. João e Rafa lançaram o desafio para que uma equipe carioca, da UFRJ, fosse a grande vencedora.

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Desafio aceito. Não só o próprio Fernando, mas outros alunos da UFRJ se mobilizaram e viajaram até Belo Horizonte e se juntaram a mais de 80 participantes vindos de 15 cidades e 15 instituições diferentes para participar do primeiro Startup Weekend Biotech & Digital Health do mundo. O desafio quase se cumpriu. A Open Hands, equipe do Fernando, ficou em terceiro lugar. Na verdade, o final de semana não valeu apenas por este, mas também por outros motivos. Muitos aprendizados foram compartilhados e várias conexões se fortaleceram.

Antes do Startup Weekend, o projeto da Open Hands caminhava para ser uma prótese para pessoas com deficiência em membros superiores, mas com o apoio dos 17 mentores que foram mobilizados para ajudar as equipes naquele final de semana, a Open Hands evoluiu para um protótipo de wearable para pessoas que já usam próteses a fim de proporcionar, a um baixo custo, a possibilidade de voltar a sentir sensações de frio e calor, o que só próteses mais sofisticadas oferecem. Para muitos (e inclusive para jurados do Startup Weekend), com esta proposta, a Open Hands foi, antes mesmo da primeira rodada, o primeiro case de sucesso gerado pelo BioStartup Lab.

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A equipe do Open Hands até tentou, mas não foi uma das 21 equipes selecionadas para a 1ª Rodada do BioStartup Lab. A representante da UFRJ ficou por conta da startup Leishnano e é, aí, que a Ariane entra na história. A Leishnano é uma spinoff acadêmica, uma startup que é oriunda de pelo menos 30 anos de pesquisas da professora Bartira Bergmann, uma referência dentro do Departamento da Biofísica do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ.

A startup formada pela própria professora Bartira, seus alunos de doutorado Ariane Batista e Wallace Lima e também pelo Rodrigo Rossi, que fortalece o lado de negócio do time, está desenvolvendo um nanofármaco para o tratamento da Leishmaniose Cutânea. Se tudo der certo, a Leishnano irá impactar milhares de vidas ao possibilitar que os pacientes diagnosticados sejam tratados apenas com uma injeção e não mais com uma quantidade que pode ir de 20 a 40 delas e causa sérios efeitos tóxicos sistêmicos, demanda deslocamento diário ao posto de saúde e alto índice de abandono do tratamento.

EQUIPE LEISH NANO

Para cumprir as 12 semanas do BioStartup Lab e, principalmente, as sete delas que eram imperdíveis, ou seja, em que era preciso estar presente em Belo Horizonte, a equipe da Leishnano se revezou. Esta foi a solução encontrada para uma dificuldade que muitos que pretendem participar acabam tendo que superar. A equipe mostrou que mesmo com grandes responsabilidades comuns na vida de qualquer pesquisador comprometido, tais como orientação a alunos e coordenação de laboratórios, quando ir além da bancada, ir além das pesquisas e gerar impacto no mundo passa a ser um ideal, toda força de vontade é pouco. 

Da cidade de Belo Horizonte, a Ariane sempre gosta de comentar que ela não conhece nada além do aeroporto, do hotel e do coworking do BioStartup Lab. Ela também comenta que o programa não apenas gerou transformações para o projeto Leishnano em si, mas também mudanças significativas na vida de seus membros. Na última sessão de lições aprendidas, por exemplo, ela marcou a todos com o comentário de que ela passou a ser “uma pessoa diferente depois de tantos aprendizados e da convivência com tantas pessoas diferentes durante o programa”.

No dia da foto no auditório da UFRJ, a Ariane estava cumprindo uma das últimas missões que a equipe do BioStartup Lab havia estimulado os participantes a cumprir: voltar para os seus ambientes e disseminar aprendizados, ajudando que outros descubram o poder da criatividade, da ciência e do empreendedorismo para gerar transformações. A equipe da Leishnano fez o mesmo papel replicador realizado pelo Fernando pouco tempo atrás e conectou pessoas de diferentes áreas para que também pudessem ter a oportunidade de conhecer o empreendedorismo como alternativa.

Neste dia, Rafa e João puderam mais uma vez se encontrar com o Fernando, mas quanta coisa mudou em tão pouco tempo. Todos estavam diante de resultados quase que tangíveis de tudo o que se sucedeu desde a conexão ocasional em Belo Horizonte, no workshop da UFMG. A Leishnano e a Open Hands se tornaram realidades dotadas de um poder mobilizador e inspirador muito maior do que qualquer case de sucesso mais noticiado. Neste sentido, certamente, ambos se sobrepõem em importância aos cases da Theranos e da GeneWEAVE usados anteriomente, porque são locais, geram identidade e sentimento de pertencimento.

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O BioStartup Lab, mais uma vez, perdeu seu protagonismo para seus próprios cases e para as conexões entre as pessoas que o torna possível. E isso é o mais valioso, porque é infinito, é incontrolável e não para. A Ariane agora conhece Fernando e a equipe do BioStartup Lab presenciou o surgimento de planos entre eles para ações em conjunto que continuarão mudando a realidade dentro da UFRJ.

O novo encontro entre Fernando, Rafa e João, por sua vez, trouxe atualizações importantes sobre o trabalho do Fernando. O troféu de 3º Lugar para o Open Hands no Startup Weekend, por exemplo, agora está em uma das estantes do Olabi, o novo lugar de trabalho do Fernando. O Olabi é um makerspace dedicado à difusão da cultura maker e à apropriação de novas tecnologias com o objetivo de unir pessoas, ideias e tecnologias para produzir impactos. Esta descoberta gerou uma nova conexão que trouxe Fernando novamente para Belo Horizonte, agora, com o objetivo de apoiar a realização da Biomaker Battle, competição realizada pela Biominas Brasil por meio do BioStartup Lab com o propósito de levar a cultura startup e o movimento maker para o universo de ciências da vida.

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Por meio da Biomaker Battle, Fernando se juntou à equipe do BioStartup Lab para impactar a vida de mais de 50 pesquisadores que, assim, como a Ariane antes da participação no BioStartup Lab, desconheciam até onde a sua pesquisa pode chegar. E o resultado disso? Mais cases! Surgiram 14 novas equipes com soluções que podem provocar transformações no mundo. A vencedora, a equipe do Sistema Iara, como prêmio, foi a primeira selecionada para compor a 2ª turma do BioStartup Lab que está com inscrições abertas e ainda irá selecionar outras 20 equipes (veja mais informações clicando aqui).

O Sistema Iara tem tudo para ser uma nova Leishnano. Oriundo de pesquisas que estão sendo realizadas no Departamento de Química da UFMG, propõe uma solução para a inacessibilidade à água por meio de um sistema que trata a água barrenta e contaminada e fornece água limpa em 1 hora, o que poderá ajudar a salvar a vida de muitas pessoas em situações de calamidade e de acidentes como o ocorrido na cidade de Mariana recentemente. Por trás da equipe formada apenas por mulheres, assim como na Leishnano, há uma grande referência acadêmica, o professor Rochel Lago que acumula décadas de pesquisas, docência, mas também de empreendedorismo científico com geração e o apoio a spinoffs acadêmicas que já geraram grande valor para a sociedade.

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Por tudo isso, ao ser perguntada por um professor sobre o que está sendo feito para que ocorra uma mudança do tipo top-down a fim de que se forme um ambiente mais favorável para a inovação e o empreendedorismo dentro das universidades, a resposta da equipe do BioStartup Lab foi a de não se está mirando grandes revoluções sistêmicas, pelo contrário, movimentos como o BioStartup Lab buscam diariamente gerar cases e pequenos motivos que provoquem mudanças na estrutura do sistema. Deste modo, aos poucos tem sido possível com pequenos exemplos práticos e mais constantes demonstrar que o principal valor do BioStartup Lab está nas pessoas e que a sua contribuição mais original é ser catalizador de conexões entre elas e de seus ideais de mudança.