26.04.2016

A história por trás do BioStartup Lab

A primeira rodada do BioStartup Lab chega ao seu fim e com ele surge contexto para contar mais sobre o programa, reunir e relembrar os resultados alcançados e (porquê, não?) revelar um pouco de seus bastidores. Mas, como fazer isso de maneira razoável?

Após algum tempo refletindo e com algumas analogias em mente, nota-se, no entanto, que a necessidade de contar a história do BioStartup Lab se torna insignificante quando se pode, na verdade, contar a história de vida do Bruno e da Trícia, os dois jovens empreendedores criadores da Fófuuu, a startup vencedora. A trajetória de Bruno e Trícia se confunde com a do próprio BioStartup Lab, numa mesma narrativa e dando lugar para uma única história.

 

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Trícia Araújo nasceu com lábio leporino, um problema que afeta, em sua maioria, crianças de 0 a 2 anos e é caracterizado por uma abertura no lábio que impede o seu desenvolvimento completo. No Brasil, são cerca de 150 mil novos casos todos os anos que acarretam distúrbios da fala, gagueira, dificuldade na alimentação, respiração pela boca e até mesmo surdez. Trícia venceu o problema durante a infância por meio de algumas cirurgias e de intermináveis exercícios de fonoaudiologia.

Mesmo tendo minimizado as dificuldades para próximo de zero, Trícia nunca se esqueceu dos traumas vividos quando criança para realizar o tratamento. Era preciso disciplina e muita paciência para fazer os exercícios recomendados pelos fonoaudiólogos. Geralmente, são exercícios baseados em sucessivos assopros a um acessório que lembra um apito na frequência indicada pelos médicos. Para uma criança ativa e cheia de energia não é difícil entender onde está o trauma de Trícia. Estes exercícios acabam por ser maçantes, monótonos ou nas palavras de Trícia “muito chatos mesmo”.

Para os pais o desafio é grande porque é deles a consciência da importância dos exercícios, já os fonoaudiólogos convivem com a responsabilidade sobre o tratamento e se veem limitados quando ele não é feito corretamente e a evolução não vem.

Trícia sempre teve um olhar diferente para o problema em relação a maioria das pessoas depois que se ‘curam’: ela criou para si o ideal de fazer a diferença e tornar a trajetória menos traumática para os 150 mil novos casos anuais de lábio leporino e, principalmente, para as crianças do mundo inteiro que, por algum motivo, terão que passar pelos exercícios. O que Trícia não imaginava é que a sua formação em design era o que iria tornar o seu ideal totalmente possível.

Em São Paulo, o insight só veio graças a sinergia entre ela e seu companheiro, o design de jogos, Bruno Tachinardi. Bruno e Trícia fundaram uma startup para o desenvolvimento de jogos online para empresas com foco na utilização em eventos. Ao conhecer um dos jogos desenvolvidos para um clientes, uma amiga fonoaudióloga fez o tipo de pergunta que geralmente é a semente para o nascimento de uma boa ideia: “Por que não desenvolver e aplicar um game no tratamento de fonoaudiologia infantil?” Bingo! Nascia a Fófuuu.

No entanto, se tudo fosse tão fácil assim, qual seria a importância de frases como a de Thomas Edison “the value of an idea lies in the using of it” (o valor de uma ideia reside na utilização dela) ou a do fundador do Vimeo, Zach Klein “a good idea is worthless without impeccable execution and a commitment to iterate” (uma boa ideia é inútil sem a execução impecável e um compromisso para fazer uma iteração) Bruno e Trícia não falharam e são exemplos que reforçam a verdade por trás delas.

O jogo inspirador para a “brilhante ideia” da fonoaudióloga tinha a lógica de usar o assopro para fazer barcos se moverem no tablet. O desafio de Bruno passava a ser adaptar as funcionalidades do jogo para o tratamento de crianças e, assim, tornar o ideal de Trícia cada vez mais próximo da realidade. A verdade é que neste momento do processo criativo da Fófuuu, Bruno e Trícia tinham o conhecimento técnico para programar e desenhar os personagens do jogo, um enorme vazio em relação a como fariam para transformar a ideia em algo acessível às crianças e muitas perguntas sem respostas.

Era meados do ano passado (2015) e nesta época, em BH, o BioStartup Lab estava se transformando em realidade numa velocidade muito maior do que em qualquer outro momento desde o início de sua trajetória há mais ou menos dois anos atrás. Diferentemente de Bruno e Trícia, a equipe do BioStartup Lab já tinha resposta para muitas perguntas e os principais desafios passavam do “como será” para o “quando será”. O programa nasceu no dia 29 de setembro de 2015 com o propósito de encontrar e apoiar “Brunos” e “Trícias” com projetos ou desejo de fazer parte de uma nova geração de empreendedores comprometida em propor soluções para problemas de saúde humana, saúde digital, agronegócio e meio ambiente.

Apesar da total sinergia e da equipe do programa ter se aventurado em excursão em algumas cidades do País, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, e realizado o feito inédito de um Startup Weekend focado em criar soluções de biotecnologia e saúde digital em um final de semana, BioStartup Lab, Bruno e Trícia só foram se encontrar em dezembro. E se é para deixar a história mais emocionante, vale contar que Bruno e Trícia deixaram para inscrever a Fófuuu na noite do domingo dia 13 de dezembro de 2015, o último dia para inscrições.

 

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Eles foram um dos 533 empreendedores que apostaram no BioStartup Lab como oportunidade para “catalisar seus ideais”. A Fófuuu concorreu com projetos e startups provenientes de 95 cidades, de 6 países e de 54 instituições de ensino e pesquisa (incluindo Stanford e Singularity University!!). Foi uma das 52 startups selecionadas para a fase de entrevistas e garantiu uma vaga entre as 21 escolhidas para estar no dia 27 de janeiro de 2016, em Belo Horizonte, para a Sessão de Boas Vindas do BioStartup Lab.

 

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Bruno e Trícia tiveram que se virar para mudar de São Paulo para Minas. Há algum tempo que a Fófuuu era assunto sério na vida dos dois e, por isso, as economias que vinham fazendo nos meses anteriores foram cruciais para bancar a estadia em BH. Mas, nada de luxo. Se no Vale do Silício norte-americano as melhores histórias de startups acontecem na garagem, no San Pedro Valley de BH, startups surgem em containers. Isso mesmo. Os fundadores da Fófuuu tomaram a curiosa decisão de viver durante as 12 semanas de programa em um hostel localizado bem próximo do coworking do BioStartup Lab em que os quartos são, na verdade, antigos containers adaptados.

 

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O BioStartup Lab foi de fato um porto-seguro para os dois. Encontrar outros empreendedores com negócios distintos, mas em estágio e com muitas dúvidas semelhantes foi a maneira de evitar que a jornada empreendedora fosse tudo, menos solitária. Na turma 01/2016 do BioStartup Lab, Trícia e Bruno viveram diariamente e trocaram experiências com pessoas de diferentes áreas, perfis e idades. Havia desde pesquisadores renomados a jovens que ainda não tinham entrado na faculdade. Todos empreendendo.

Logo também foi possível perceber que a Fófuuu perdia no quesito de startup mais exótica ou de startup mais complexa. No primeiro caso, a Hakkuna, startup que produz barrinhas de cereal a partir de proteína de insetos, foi imbatível e, no segundo caso, as startups Imunotera, Leishnano, Oncotag, AS31 e P.S.I., que, respectivamente, buscam transformar pesquisas oriundas na bancada dos laboratórios da USP, UFRJ, Funed, UFOP e FioCruz em produtos e serviços ganharam tranquilamente a disputa.

Ao lado dos empreendedores destas e das demais startups, Bruno e Trícia ouviram, repetidamente, que ter uma simples ideia não vale nada. Que é preciso definir bem o problema que a sua ideia ajuda a resolver; que é preciso conhecer quem tem este problema e quem paga pela solução. É preciso ir atrás destas respostas, falhar rápido e reconstruir hipóteses. Perder noites de sono, fazer planilhas, realizar reuniões e bater metas. É importante viver em comunidade e aprender com os erros dos outros, pois muitas vezes a melhor forma de vencer uma dificuldade está na experiência de outros empreendedores e não no conhecimento dos especialistas. Isso é a cultura startup.

 

coworking

 

Quanto mais atividades de aceleração Bruno e Trícia participavam, mais as paredes do container ficavam carregadas de post-its que registravam as novas ideias e anotações importantes para a evolução e para o futuro da Fófuuu. Foram no total, mais de 200 horas de aceleração e atividades com mais de 40 palestrantes e mais de 30 mentores das quais Bruno e Trícia não perderam uma sequer, o que na opinião de seus colegas empreendedores lhes garantiu o título de “Startup Mais Dedicada” da Rodada com 60% dos votos.

 

Post its no container

 

Contudo, dedicação, às vezes, não diz muita coisa. Em nenhuma das  bancas de avaliação entre as etapas do programa, a Fófuuu posicionou nas primeiras colocações e, o momento mais difícil para a startup foi após a última banca em que a Fófuuu ficou na décima posição. Bruno e Trícia não se abateram e, há menos de 48 horas da disputa final, fizeram os ajustes necessários, aprimoraram sua apresentação e reforçaram o seu discurso. Quase não dormiram e trabalharam contra o tempo para levar para o stand da Fófuuu no DemoDay uma versão piloto do game pronta para jogar. Queriam fazer bonito para os mais de 200 convidados presentes e, principalmente, para os representantes dos 11 fundos de investimento.

 

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No palco, Bruno começou sua apresentação gaguejando e desafiou a plateia a imaginar como seria conviver com um problema como aquele durante toda a vida. Trícia não estava no palco, mas era como se estivesse. Seus desenhos fizeram sucesso e chamaram a atenção no telão. Ainda não houve ser humano vivo que não foi atraído pelo visual dos personagens e pelo mundo lúdico trazido pela Fófuuu.

 

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O anúncio da startup vencedora foi o último grande ato da Rodada 01/2016 do BioStartup Lab e logo após receber a informação de que era a Fófuuu, Bruno, em choque, lançou a pergunta para a sua companheira:

– “O que a gente vai fazer agora, Trícia?”

E a resposta veio quase que sem pensar:

–  “A gente vai levar o Fófuuu pro mundo, para ajudar muitas crianças e fazer todas elas sorrirem, igual eu estou sorrindo hoje”.

 

Trofeu

 

Neste instante, junto com as palavras de Trícia, o BioStartup Lab perdia qualquer protagonismo que ainda lhe restava. A história do BioStartup Lab não existe mais. De agora em diante, ela passa a ser contatada por meio de histórias como a dos fundadores da Fófuuu: pessoas engajadas por uma causa, que pensam além de si mesmas, se sensibilizam por problemas reais e concentram sua criatividade e conhecimento na construção de algo que pode fazer a diferença e redefinir mudanças das quais o mundo precisa. Pessoas que não desistem com as dificuldades, que sabem ouvir, respeitam e enxergam valor na história, nos erros e nos aprendizados dos outros.